O concurso “3MT-UAlg” voltou a desafiar estudantes de doutoramento da Universidade do Algarve a transformar anos de investigação científica em apresentações claras, acessíveis e impactantes com apenas três minutos de duração. Inspirada no modelo criado pela Universidade de Queensland, na Austrália, a iniciativa pretende estimular competências de comunicação científica, promover a interdisciplinaridade e aproximar a ciência do público. O concurso divide-se em duas fases: uma seleção inicial através de vídeo e diapositivo, seguida de uma apresentação oral perante júri e público. Mais do que uma competição, o 3MT tornou-se uma oportunidade para os investigadores aprenderem a comunicar o seu trabalho para além do contexto académico.
Este ano o CCMAR contou com a participação de 4 doutorandos que representaram muito bem a investigação do centro.
Entre os participantes esteve Daniela Castro, cuja investigação procura tornar a aquacultura mais eficiente através da utilização de microalgas modificadas na alimentação dos peixes. O estudo explora de que forma alterações nutricionais podem reduzir malformações esqueléticas e aumentar a sobrevivência dos peixes em aquacultura. Os resultados mostram que peixes alimentados com microalgas cultivadas em meios enriquecidos com ferro e azoto apresentaram melhor crescimento e menos deformações. Para Daniela, o maior desafio foi precisamente adaptar um discurso técnico a uma linguagem acessível:
Penso que a parte mais crítica foi transformar uma tese e um discurso habitualmente mais técnico em algo para público geral. Por isso, fiz um discurso que fui aprimorando com o tempo e usando a família como ‘cobaia’, para perceber se era uma história perceptível.
A aluna destaca ainda a importância da experiência para desenvolver competências de comunicação:
“Aprendi a comunicar ciência de uma forma simples e acessível. Além disso, ouvir as apresentações dos outros participantes deu-me novas perspetivas e foi uma grande oportunidade de aprendizagem e inspiração.”
Também Rui Peres dos Santos levou ao palco uma investigação centrada no impacto das alterações climáticas nas rotas migratórias das baleias de barbas no Atlântico Norte, com especial foco na região dos Açores. Rui tentou perceber de que forma o aquecimento global poderá alterar as “autoestradas migratórias” destas espécies e comprometer a presença de baleias-azuis nos Açores até ao final do século. Entre os 866 indivíduos já identificados na região, destacam-se 144 baleias-azuis — o maior número registado numa única região do Atlântico Norte. Os modelos desenvolvidos indicam uma redução significativa da adequabilidade do habitat em cenários de maior stress climático, com impactos particularmente relevantes para a baleia-azul.
Para o doutorando, o principal exercício do concurso foi aprender a sintetizar uma investigação complexa:
A preparação baseou-se em treinar uma apresentação de forma oposta àquela que me é mais natural, que normalmente passa por desenvolver bastante um tema. Neste caso, foi necessário definir primeiro um discurso mais sintético, capaz de resumir o meu conhecimento em poucas palavras, e depois integrá-lo numa apresentação que fluísse de forma natural e científica.
Rui destaca também o impacto da experiência na sua forma de comunicar ciência:
“Foi uma experiência importante para aprender a ir diretamente ao cerne da questão, evitando divagações e tornando a apresentação acessível a uma audiência com diferentes backgrounds. Contribuiu bastante para desenvolver a minha capacidade de síntese e comunicação científica.”
Já Camila Vieira da Costa apresentou uma nova perspetiva sobre os micro e nanoplásticos, focando-se não apenas na sua fragmentação física, mas também nas transformações químicas que ocorrem durante a degradação ambiental. O seu trabalho demonstra que, quando expostos à radiação ultravioleta e ao calor, os plásticos podem originar novos compostos com assinaturas químicas próprias, específicas de cada material. Esta abordagem abre caminho para novas formas de monitorização ambiental, permitindo ir além da simples contagem de partículas e investigar os produtos resultantes da sua degradação.
É realmente desafiador simplificar e tornar acessíveis ao público geral temas científicos complexos, mas comunicar ciência é tão importante quanto produzi-la. O concurso exige, na primeira fase, a gravação de um vídeo de até 3 minutos, sem cortes e com contato visual direto para a câmera, o que por si só já foi um grande desafio, mas que, de certa forma, também acabou sendo uma preparação para a segunda fase.
Na apresentação presencial, além da exposição pública, precisamos lidar com o nervosismo, manter a atenção do público e, ao mesmo tempo, preservar o rigor científico ao comunicar o nosso projeto.
O estudo levanta ainda novas questões sobre toxicidade e impacto ecológico: o que são estes compostos, onde se acumulam e como interagem com os ecossistemas? Camila ressalva que esta experiência foi muito enriquecedora e que obriga à saída da zona de conforto. Além de que proporciona oportunidade de desenvolvimento de competências de comunicação científica e networking:
Tivemos também a oportunidade de interagir com investigadores de outras áreas, trabalhar nossa autoconfiança e participar de um ambiente de troca e aprendizagem, além, claro, de concorrer ao prémio.
A ciência produzida nos bastidores dos laboratórios se torna ainda mais enriquecedora quando conseguimos transmitir o nosso conhecimento despertando a curiosidade, criando conexão e aproximando a ciência das pessoas.
No mesmo concurso, Sari Ponnet foi distinguida com o segundo prémio, no valor de 2 mil euros, com um projeto dedicado à restauração de pradarias marinhas através da integração de mapeamento espacial, cultivo em viveiro e envolvimento cívico. As pradarias marinhas são ecossistemas frequentemente subestimados, apesar do seu papel essencial na proteção costeira, biodiversidade, pescas e armazenamento de carbono.
Para Sari, a preparação foi um processo intenso e contínuo de refinamento da narrativa científica:
“Comecei por escrever o texto e fui ajustando-o constantemente, enquanto o dizia em voz alta, tentando fazê-lo fluir naturalmente. Depois passei a decorá-lo e a praticá-lo em todo o lado: no duche, na cama, a caminhar…”
A investigadora sublinha ainda a importância do contacto com diferentes públicos durante a preparação e confidencia que simulou ambientes de pressão propositadamente:
Percebi rapidamente que saber o texto não era suficiente. Comecei a praticar com amigos, família e até pessoas fora da área. O feedback ajudou-me a tornar a história mais clara e acessível. Queria aumentar o nível de stress e aproximar-me da experiência real. Também me filmei para analisar gestos e melhorar a comunicação não verbal. Aprendi muito a sintetizar a minha investigação em linguagem clara e acessível, e a tornar os visuais mais apelativos. No geral, foi um excelente treino de comunicação científica e de apresentação pública.
O “3MT-UAlg” continua assim a afirmar-se como uma plataforma que desafia jovens investigadores a traduzirem ciência complexa em mensagens claras, acessíveis e impactantes, reforçando a importância da comunicação científica na ligação entre investigação e sociedade.




