O Atlântico abriu-se como sala de aula para Caio Ribeiro, investigador do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve (CCMAR), que foi selecionado como Junior Teacher para a expedição internacional North–South Atlantic Transect (NoSoAT), organizada pelo Alfred Wegener Institute (AWI), um dos maiores centros de investigação polar e marinha do mundo.
A bordo do navio quebra-gelo RV Polarstern, no percurso entre Bremerhaven e Walvis Bay, Caio integrou o grupo de apenas cinco docentes externos escolhidos entre quase 800 candidatos, com a missão de formar os cerca de 20 estudantes participantes.
“Ser selecionado representa um reconhecimento do percurso que tenho vindo a construir, muito centrado na ponte entre investigação, trabalho de campo e formação de jovens cientistas”, afirma o investigador. “Para o CCMAR, reforça a visibilidade internacional da instituição e atrai estudantes de grande qualidade para trabalhar connosco.”
A bordo do Polarstern: 24 horas de ciência em alto mar no Atlântico
Durante quase um mês, o ritmo não abrandou: turnos contínuos, operações científicas noite e dia, cinco a seis sessões de ensino diárias e um convívio intenso entre investigadores de várias nacionalidades.
Graças à sua experiência, Caio Ribeiro teve um papel central na formação científica a bordo da expedição, assumindo responsabilidades de ensino e supervisão nos módulos de Oceanografia e Modelação.
No módulo de Oceanografia, os participantes aprenderam a recolher dados do oceano com uma Roseta CTD, que permite medir variáveis como temperatura e salinidade a diferentes profundidades. Trabalharam ainda com o software Ocean Data View (ODV), utilizado para criar gráficos que ajudam a identificar massas de água e a interpretar dados reais. No módulo de Modelação, Caio e os alunos lançaram mais de 30 sondas XBT, que transmite dados de temperatura em tempo real de volta para o navio, até 1830 metros de profundidade. Estes dados foram combinados com modelos climáticos, observações e reanálises, permitindo estudar os processos do Atlântico relacionados com o aquecimento global.
Ao longo da expedição, foi realizado um transecto completo do Atlântico, recolhendo dados sobre carbono, pH, nutrientes, fitoplâncton e propriedades físicas da água. Esta informação integra séries temporais internacionais, fundamentais para compreender como o oceano responde às alterações climáticas.
“A NoSoAT oferece um conjunto de observações que não conseguimos obter de outra forma. Este tipo de amostragem integrada (física, química e biológica) é crucial para perceber o papel do Atlântico no sistema climático global”, explica Caio. “São dados que continuarão a ser usados por equipas de investigação de vários países.”
A ponte entre o navio e Faro
Dias antes de embarcar, Caio visitou uma turma do 12.º ano da Escola Secundária Tomás Cabreira, em Faro, onde falou sobre a sua trajetória, o que significa fazer ciência no mar e os objetivos da expedição. A conversa teve continuação a centenas de quilómetros da costa: a 25 de novembro, o investigador voltou a falar com os estudantes — desta vez em direto do Polarstern, respondendo a perguntas sobre o quotidiano no navio, o trabalho científico e os desafios da vida em campanha.
Uma colaboração com futuro
Para Caio Ribeiro, esta missão é “um passo estratégico” para reforçar a colaboração entre o CCMAR e o AWI. “Além do trabalho de campo e da troca de metodologias, criámos uma base muito sólida para publicações conjuntas, novos projetos internacionais e oportunidades de integração de estudantes do CCMAR em futuras expedições.”
A expedição terminou com uma palestra conjunta dada pelos Junior Teachers e Caio terminou com forte aplauso e com um sentimento de comunidade. “Voltámos cansados, mas com um sorriso na cara e uma ligação muito forte entre todos. A componente humana foi tão marcante quanto a científica. A convivência a bordo, a mentoria e a troca intercultural entre investigadores de diferentes países contribuem diretamente para a formação de uma nova geração de cientistas mais preparada para enfrentar desafios globais complexos”, sublinha.
A NoSoAT integra o programa Ocean Capacity Exchange (OceanCapX), promovido pelo AWI em parceria com o Partnership for Observation of the Global Ocean (POGO), a University of Galway, a Trinity College Dublin, Nippon Foundation, entre outras instituições. O programa combina formação avançada em técnicas de observação oceânica, análise de dados e governação do oceano — competências fundamentais para enfrentar os desafios climáticos da próxima década.
A participação de um investigador do CCMAR reforça o papel do centro na ciência marinha internacional e no apoio à formação da próxima geração de investigadores dedicados ao estudo do oceano.




