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Whale shark
Publicado a
Keywords
PhD
marine ecology
marine conservation

Desde o seu fascínio precoce por grandes animais marinhos ao uso de análises de ponta sobre os seus movimentos em ambientes vastos e remotos, o doutoramento de Miguel Gandra foi impulsionado por uma simples, mas poderosa pergunta: como é que algumas das espécies do oceano realmente vivem e se movem pelo mar?

Durante o seu doutoramento, Miguel Gandra centrou-se na ecologia do movimento e no comportamento da megafauna marinha, um grupo que inclui tubarões e outras espécies marinhas de grande porte, as quais desempenham um papel crucial nos ecossistemas do Oceano. Para o efeito, recorreu a uma combinação de telemetria acústica, etiquetas de satélite e sensores de biolocalização de alta resolução para rastrear animais em ambientes costeiros, oceânicos e de águas profundas, tendo aplicado abordagens computacionais e de análise de dados avançadas para revelar padrões que até então permaneciam praticamente invisíveis.

O seu trabalho abrangeu mundos marinhos muito diferentes. Ao longo da Península Ibérica, Miguel estudou a corvina legítima (Argyrosomus regius), um grande predador costeiro cujos movimentos sazonais e padrões migratórios eram pouco conhecidos. No arquipélago dos Açores, a sua investigação estendeu-se ao mar profundo, centrando-se em tubarões de águas profundas em perigo de extinção, como o tubarão gata-lixa (Dalatias licha) e o tubarão-albafar (Hexanchus griseus), bem como no tubarão-baleia (Rhincodon typus), o maior peixe do planeta.

sampling

"Apesar da sua importância ecológica, ainda sabemos muito pouco sobre a forma como a maioria destas espécies utiliza os seus habitats, particularmente em ambientes remotos ou em águas profundas. Sem essas informações, corremos o risco de implementar medidas de gestão que não correspondem às necessidades reais das espécies ou de ignorar por completo áreas importantes.”

Esta falta de conhecimento é especialmente preocupante, dado que muitas destas espécies estão cada vez mais ameaçadas pela sobrepesca, perda de habitat e alterações climáticas. Além de promover o avanço do conhecimento científico, as implicações deste trabalho são profundamente práticas. Ao saber onde e quando estes animais se deslocam, os gestores podem identificar habitats essenciais, corredores de migração e áreas sazonalmente importantes, o que é vital para o planeamento espacial marinho, a gestão das pescas e a criação de áreas marinhas protegidas.

Com formação em biologia computacional e análise de dados, Miguel identificou a oportunidade de combinar tecnologias inovadoras de monitorização com aprendizagem automática e ferramentas analíticas avançadas. Esta abordagem revelou padrões de movimento inesperados, incluindo migrações de longa distância e uma forte fidelidade ao local em espécies de águas profundas, cuja suposição anterior era a de que vagavam amplamente. O trabalho resultou também no desenvolvimento de ferramentas de acesso aberto que tornam estas análises acessíveis a investigadores e gestores em todo o mundo, constituindo um passo em direção a uma conservação dos oceanos mais transparente, colaborativa e eficaz.

Esta jornada científica não foi nada solitária. Miguel destaca o papel fundamental dos seus orientadores, David Abecasis (CCMAR) e Pedro Afonso (OKEANOS), cuja orientação e apoio foram cruciais para o projeto, desde o início até ao fim. Miguel agradece também aos seus colegas de laboratório, Sebastian KraftLucas Martínez-Ramírez, bem como à equipa mais alargada de biotelemetria dos Açores no OKEANOS, nomeadamente a Jorge Fontes, por partilharem dados, ideias e experiências inesquecíveis de trabalho de campo.

"O CCMAR proporcionou um ambiente de investigação excecional, sem o qual este trabalho não teria sido possível. Além do apoio institucional, o ambiente colaborativo e a oportunidade de interagir com uma comunidade diversificada de cientistas marinhos foram fundamentais para moldar a minha investigação e o meu desenvolvimento enquanto cientista."

Após concluir o doutoramento, Miguel Gandra pretende continuar a trabalhar no domínio da ecologia marinha e da conservação, traduzindo o conhecimento científico em ações concretas de conservação. Os seus planos incluem expandir as colaborações internacionais, aplicar essas abordagens a espécies e regiões pouco estudadas, bem como continuar a desenvolver ferramentas de código aberto que facilitem o acesso a métodos analíticos avançados. Igualmente importante, Miguel continua empenhado na comunicação de ciência, com vista a colmatar a lacuna entre a investigação, as políticas e a gestão dos oceanos num momento de rápidas alterações ambientais.