Investigadores portugueses e chineses reuniram-se no campus da UAlg para dois dias de ciência. Mas, por detrás das apresentações e das discussões científicas, esteve uma questão maior: que lugar poderá ocupar a cooperação entre Portugal e China na próxima fase da política científica nacional?
A 6.ª Reunião Anual do International Joint Research Centre for Marine Sciences, que decorreu em paralelo com o Simpósio CCMAR, deu o mote para o arranque do encontro que reuniu investigadores, estudantes e representantes de instituições científicas e governamentais de Portugal e da China, na passada quarta-feira, dia 23 de setembro.
Os dois dias que se seguiriam estavam desenhados como um encontro científico: apresentações sobre ecossistemas marinhos, alterações climáticas, aquacultura, biotecnologia, saúde, ciência de dados ou inteligência artificial. Mas a sessão de abertura rapidamente mostrou que aquele encontro iria mais além, serviria para falar também do futuro de uma relação científica construída ao longo de mais de uma década, entre os dois países.
“Em todo o mundo, enfrentamos desafios ambientais, sociais e económicos cada vez mais complexos, e a cooperação científica tornou-se não apenas valiosa, mas essencial”, afirmou Alexandra Teodósio, reitora da Universidade do Algarve, perante investigadores portugueses e chineses.
A história desta colaboração não começou aqui
Em 2012, o Centro de Ciências do Mar, a Universidade do Algarve e a Shanghai Ocean University iniciaram uma parceria que viria a aprofundar-se nos anos seguintes. Em 2014, dois workshops realizados em Lisboa, com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e da National Natural Science Foundation of China (NSFC), deram origem a propostas mais concretas para estreitar a colaboração científica entre os dois países. Nesse mesmo ano foi assinado um protocolo de cooperação em investigação e inovação na área das ciências do mar.
Em setembro de 2017, a colaboração ganhou uma estrutura própria com a criação do International Joint Research Centre for Marine Sciences, envolvendo, , o CCMAR, a Universidade do Algarve e a Shanghai Ocean University.
Desde então, a parceria passou da declaração de intenção para atividades concretas: projetos de investigação conjuntos, summer schools, orientação conjunta de estudantes e intercâmbios de investigadores e alunos. Foi precisamente esta continuidade que Adelino Canário, presidente do CCMAR, destacou na cerimónia de abertura do evento.
“Hoje e amanhã temos um programa abrangente de apresentações científicas e de partilha de conhecimento, e esperamos novas colaborações”, afirmou Adelino Canário, presidente da Direção do CCMAR.
A ciência portuguesa está também a escolher as suas prioridades
A reunião aconteceu num momento particularmente relevante para a política científica portuguesa.
Portugal está atualmente a reorganizar o seu sistema de investigação e inovação. A nova Agência para a Investigação e Inovação (AI²),i criada em 2025 através da transformação da Agência Nacional de Inovação e respetiva fusão com a FCT, assumiu competências de promoção, financiamento e avaliação da ciência, investigação, valorização do conhecimento, desenvolvimento tecnológico e inovação.
Foi neste contexto que Fernando Alexandre, ministro da Educação, Ciência e Inovação, levou a discussão para além das fronteiras nacionais.
“Portugal está atualmente a discutir quais são as áreas mais estratégicas para o nosso país”, explicou durante a sessão de abertura. “Tenho a certeza de que as ciências do oceano e as ciências marinhas serão uma delas”, afirmou o ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre.
O momento é particularmente significativo para uma parceria como a que o CCMAR mantém com instituições chinesas: existe já uma estrutura de cooperação, existem equipas que trabalham em conjunto e existe experiência acumulada. O desafio passa agora por saber como estas relações poderão ser apoiadas e ampliadas no novo enquadramento.
O próprio Diretor do Centro, Adelino Canário, levantou esta questão na abertura do encontro, lembrando que passaram quase dez anos desde a criação deste quadro de cooperação e defendendo o acesso a novos mecanismos de financiamento capazes de apoiar a colaboração científica e o intercâmbio entre os dois países.
Discussões e interações diversas
Nos dois dias seguintes, a discussão ganhou uma diversidade de temas, relacionados na sua maioria com a investigação desenvolvida no Centro de Ciências do Mar do Algarve, e revelando uma amplitude enorme na investigação marinha que o centro alberga.
O programa científico reuniu 26 apresentações de investigadores do CCMAR, da Universidade do Algarve e da Shanghai Ocean University. Houve espaço para discutir a eficácia das áreas marinhas protegidas e a ciência aberta; ferramentas de ciência de dados para acompanhar o funcionamento dos ecossistemas; alterações ambientais registadas nos sedimentos do passado; ecotoxicologia marinha; redes tróficas e ondas de calor; movimentos de animais marinhos e gestão sustentável do oceano.
As apresentações na área da aquacultura afloraram questões de bem-estar animal e nutrição sustentável. A biotecnologia levou a discussão para os compostos marinhos, medicamentos, biotoxinas e potencial terapêutico de organismos marinhos. Outras apresentações exploraram ainda inteligência artificial e bioimagem, evolução, microbiologia, conservação de cetáceos, segurança alimentar de bivalves e biotecnologia de algas.
Mais do que uma lista de áreas, estas apresentações mostraram diferentes formas de olhar para o mesmo sistema: o oceano enquanto espaço ecológico, recurso económico, arquivo ambiental, fonte de novos compostos e objeto de exploração de tecnologias cada vez mais sofisticadas.
É também nessa diversidade que a colaboração internacional encontra espaço para crescer.
No segundo dia, a discussão mudou de natureza
Além das apresentações científicas, o programa incluiu sessões sobre as estruturas administrativas e de serviços de apoioà investigação no CCMAR, da comunicação e divulgação às plataformas científicas, educação, gestão da inovação, recursos humanos, gestão de projetos e serviços financeiros.
A tarde foi dedicada ao workshop “Valorização dos Resultados da Investigação”, conduzido por José Ricardo Aguilar, do Instituto Pedro Nunes. Aqui, a pergunta já não era apenas “o que descobrimos?”, mas também “o que pode acontecer a esta descoberta a seguir?”.
É uma mudança de perspetiva importante: uma descoberta pode começar num laboratório, mas o seu percurso não termina necessariamente numa publicação científica. Pode passar por propriedade intelectual, transferência de conhecimento, desenvolvimento tecnológico, colaboração com empresas ou criação de novas soluções para a sociedade.
Entre as questões levantadas pelos investigadores esteve a proteção da propriedade intelectual e, em particular, o recurso a patentes.
Uma parceria construída para continuar
Ao terminar a reunião, ficam duas escalas da mesma história.
De um lado, uma relação científica que começou há mais de uma década e que já produziu projetos, formação, mobilidade e investigação conjunta. Do outro, um novo momento em que Portugal está a definir prioridades científicas e a reorganizar os instrumentos através dos quais a investigação será apoiada.
É neste cruzamento que o CCMAR e a Universidade do Algarve se encontram particularmente bem posicionados: não apenas como instituições interessadas em estabelecer novas parcerias, mas como parceiros que já têm uma história de trabalho científico com instituições chinesas.
Para Alexandra Teodósio, essa continuidade é precisamente uma das forças da relação. “Esta reunião é mais do que uma conferência científica”, afirmou. “Demonstra claramente como as parcerias internacionais podem criar oportunidades para excelência na investigação, formação avançada, inovação e compreensão mútua entre países e culturas.”
No final, a ambição expressa por Fernando Alexandre também apontava nessa direção: mais estudantes a circular entre os dois países, mais mobilidade de investigadores e equipas construídas em conjunto.
A ciência pode ser feita em diferentes laboratórios e em diferentes continentes. Neste caso, uma parte dessa história começou há 14 anos entre o Algarve e Shangai e dos dois lados há uma vontade manifesta e comum para prosseguir com esta parceria no futuro.



