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Keywords
paleoceanography
climate and ocean
climate change

Imagine procurar pistas sobre as mudanças do oceano em pequenas conchas preservadas durante milhões de anos nos sedimentos do fundo marinho. É esse o potencial dos foraminíferos planctónicos: organismos microscópicos que vivem na coluna de água e cujas conchas fossilizadas permitem reconstruir aspetos do ambiente marinho do passado. Uma destas espécies, Neogloboquadrina atlantica, habitou o Atlântico Norte desde o Miocénico Superior (~11.76 milhões de anos atrás). Embora extinta, continua a desempenhar um papel fundamental na investigação científica, ajudando a datar sedimentos marinhos e a interpretar as condições oceânicas de eras passadas.

 
A mesma espécie, duas formas distintas, dois finais diferentes

Como podemos reconstruir o passado desta espécie? Os investigadores analisaram fósseis de várias regiões do Atlântico Norte, combinando contagens de abundância com análises geoquímicas. As proporções de isótopos de oxigénio e carbono nas conchas funcionam como um termómetro e um registo químico do ambiente. Estes dados revelaram que a forma dextral (espiral para a direita) habitava preferencialmente águas subsuperficiais, na zona da termoclina, com preferências ecológicas semelhantes às de algumas espécies modernas. Uma das grandes descobertas do estudo é que os dois morfotipos (ver Figura 1) — que se distinguem pela direção do enrolamento da concha — seguiram trajetórias de extinção totalmente distintas. A forma sinistral (espiral para a esquerda) deixou de ser registada globalmente há cerca de 2,4 milhões de anos. Já a forma dextral teve um desaparecimento marcadamente diácrono (desfasado no tempo): desapareceu primeiro das regiões subpolares mais frias (entre 1,8 e 1,9 milhões de anos atrás), mas persistiu nas águas mais quentes do norte do giro subtropical e na margem Portuguesa até cerca de 1,3 milhões de anos atrás. Esta diferença prova que o fim da espécie não ocorreu num único momento em todo o oceano, mas seguiu padrões geográficos ditados pela latitude. Os autores relacionam estes padrões com o arrefecimento progressivo do Hemisfério Norte e com o aumento da instabilidade climática glacial-interglacial, que reorganizou a circulação oceânica e reduziu drasticamente os habitats favoráveis.

Fig. 1 - Vistas dorsais da Neogloboquadrina atlantica, mostrando os dois morfótipos de espiral. Esquerda: espécime dextral (espiral para a direita) do local U1313 do IODP (U1313C-7-3, 148–150 cm; há 1,307 milhões de anos). À direita: espécime sinistral (enrolamento para a esquerda) do local ODP 981 (981-17-3, 40–42 cm; há 2,482 milhões de anos). As setas brancas indicam as direções de enrolamento no sentido horário (dextral) e anti-horário (sinistral), respetivamente. Barra de escala: 100 µm.

 

O que nos dizem estas pequenas conchas?

Estes microfósseis são muito mais do que vestígios do passado: a sua distribuição no tempo e no espaço é uma ferramenta poderosa para estabelecer cronologias geológicas. O estudo demonstra que ignorar as diferenças entre formas da mesma espécie ou a região geográfica pode levar a leituras erradas: a última ocorrência de um fóssil varia consoante o local. Ao detalhar estas histórias, a ciência obtém uma imagem muito mais rigorosa sobre como os habitats marinhos respondem às alterações climáticas globais.

 

Artigo: Duque‐Castaño, M., Raymo, M., Billups,K., Andersen, N., Kuhnert, H., & Voelker,A. H. L. (2026). The rise and fall of Neogloboquadrina atlantica: Distribution and extinction in the North Atlantic. Paleoceanography and Paleoclimatology,41, e2026PA005550. 
https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1029/2026PA005550