O Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve (CCMAR) co-liderou um estudo de revisão internacional que sintetiza duas décadas de avanços científicos sobre bem-estar dos peixes e destaca a necessidade de integrar este conhecimento nas práticas de aquacultura, pescas, investigação e conservação. O trabalho foi publicado na revista científica Journal of Fish Biology.
Os peixes são animais sencientes, capazes de sofrer e de experienciar estados positivos, e o seu bem-estar deve ser tratado como uma questão prioritária. Esta é uma das principais conclusões do estudo, co-liderado por João Saraiva, investigador do Centro de Ciências do Mar — CCMAR. O artigo, intitulado Fish welfare in a changing world: New developments and current challenges, reuniu 17 especialistas de instituições de nove países da Europa, Américas e Austrália, e analisa os progressos científicos nas áreas da neurobiologia, cognição, dor, estados afetivos, alterações climáticas, tecnologia e enquadramento legal relacionados com os peixes.
A revisão conclui que existe atualmente evidência científica robusta de que os peixes são animais sencientes, capazes de experienciar sofrimento e também estados positivos, defendendo que o seu bem-estar deve ser considerado de forma integrada ao longo de todo o ciclo de vida e em diferentes contextos de interação humana.
“Os peixes são animais muito mais complexos do que aquilo que se pensa. Já que estamos a confiar nos peixes como modelo experimental para guiar parte da nossa medicina, é bom que reconheçamos aquilo de que são capazes”, afirma João Saraiva. “Integrando este conhecimento com aquilo que já se sabe das práticas mais avançadas da aquacultura e da pesca, é possível melhorar a vida dos peixes e o bem-estar dos animais dos quais dependemos para alimentação.”
Para o líder do Grupo de Etologia e Bem-Estar de Peixes do CCMAR, uma das mudanças mais importantes das últimas duas décadas resulta do uso crescente de peixes como modelos em neurociências, psiquiatria e biomedicina. Esse conhecimento, defende, obriga a olhar para estes animais não apenas como ferramentas de investigação, mas como seres com mecanismos básicos de regulação emocional, capacidade de sofrimento e possibilidade de experienciar estados emocionais tanto negativos como positivos.
“Basta olhar para aquilo que já sabemos sobre os peixes quando os utilizamos nas ciências biomédicas e olhar para eles como animais”, afirma o investigador. “Aí temos um panorama muito claro: os peixes são seres sencientes, capazes de sofrer e também de ter emoções positivas.”
No contexto da aquacultura, os autores defendem uma abordagem centrada na melhoria das condições de vida dos animais ao longo de todo o processo produtivo, incluindo maneio, transporte e abate. O artigo sublinha igualmente a importância de desenvolver soluções em articulação com o setor, garantindo que as medidas propostas sejam tecnicamente viáveis e aplicáveis à realidade da produção.
A revisão aborda também os desafios específicos das pescas, defendendo a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre o impacto dos diferentes métodos de captura nas várias espécies, de modo a apoiar o desenvolvimento de boas práticas baseadas em evidência científica.
Outro dos temas centrais do artigo é o conceito de “bem-estar positivo”, uma abordagem que procura avaliar não apenas a ausência de sofrimento, mas também a possibilidade de os animais experienciarem estados positivos e condições de vida compatíveis com as suas necessidades biológicas.
“Temos um dever ético de tratar bem os animais que nos alimentam”, afirma.
Esta abordagem insere-se no quadro do One Welfare, que liga bem-estar animal, bem-estar humano, condições de trabalho, regulação, consumo e sustentabilidade.
O estudo destaca ainda o potencial das novas tecnologias para melhorar a monitorização do bem-estar em sistemas de produção aquícola. Ferramentas como sensores, câmaras, análise de parâmetros da água e sistemas baseados em inteligência artificial poderão permitir avaliações mais contínuas, precisas e menos invasivas do estado dos animais.
As alterações climáticas são igualmente identificadas como um dos principais desafios emergentes para o bem-estar dos peixes e para a sustentabilidade da aquacultura. O aumento da temperatura da água, fenómenos extremos, surtos de doenças, proliferação de microalgas e alterações ambientais rápidas podem afetar diretamente a saúde e a capacidade de adaptação das espécies.
“As alterações climáticas estão a afetar o bem-estar dos peixes de uma forma muito direta”, afirma o investigador. “O problema não é apenas o aquecimento global ou a intensificação dos fenómenos extremos; é a rapidez com que tudo isto acontece, sem que as espécies – ou mesmo a indústria - tenham tempo para se adaptar.” Esse é, aliás, um cenário, para o qual o estudo alerta: a necessária preparação da indústria para os riscos cada vez mais frequentes e intenso, provocados pelas alterações climáticas.
No plano legal, a revisão defende que os peixes devem ter uma proteção comparável à dos animais terrestres, ainda que adaptada às especificidades do meio aquático. Essa adaptação, sublinha João Saraiva, "deve ser feita ouvindo a indústria e tendo em conta as condições reais de produção, transporte, captura e abate".
Os sistemas de certificação podem também desempenhar um papel importante na mudança. Ao permitirem identificar produtos associados a melhores práticas de bem-estar animal, dão aos consumidores uma ferramenta para sustentar escolhas mais informadas e pressionar produtores, distribuidores e reguladores a adotarem padrões mais exigentes.
“Para o consumidor é fácil ter um selo de certificação, mas convém que estes requisitos sejam efetivos na proteção do bem-estar”, afirma João Saraiva. Para o investigador, a mudança deve combinar uma abordagem “de cima para baixo”, através da legislação, com uma pressão “de baixo para cima”, através de consumidores mais atentos às práticas das empresas.
Apesar dos avanços registados, a revisão identifica várias áreas onde subsistem lacunas de conhecimento, nomeadamente na validação de indicadores de bem-estar, desenvolvimento de tecnologias de monitorização e avaliação de métodos de atordoamento e abate.
Para os autores, a principal conclusão do trabalho é que o conhecimento científico atualmente disponível já permite apoiar mudanças progressivas nas práticas relacionadas com os peixes, promovendo simultaneamente o bem-estar animal, a sustentabilidade e a confiança dos consumidores. "Os peixes são muito mais complexos do que aquilo que se pensa. Já se sabe muito sobre isso. Há muitas áreas em que o desconhecimento ainda é grande, mas o artigo aponta como se pode abordar essas áreas e mostra onde estão as soluções e os caminhos para o futuro”, conclui João Saraiva.




