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Estudo internacional publicado na Nature, reúne 318 teias alimentares de ecossistemas marinhos, água doce e de solo para mostrar como a biodiversidade e a estrutura das redes tróficas influenciam funções ecológicas essenciais. 

Embora a relação positiva entre biodiversidade e funcionamento ecológico seja bem conhecida, os investigadores de mais de 20 instituições, entre as quais o CCMAR, quiseram perceber melhor como é que esta ligação se apresenta nos ecossistemas reais e complexos, por todo mundo. 

 
Este "como" distingue o estudo de trabalhos anteriores, assim como a sua escala mundial. 

Em vez de se limitar a mostrar que mais biodiversidade está associada a um maior funcionamento ecológico, o artigo testa de que forma a complexidade das teias alimentares ajudam a explicar essa relação. 

Para isso, a equipa analisou 318 teias alimentares altamente resolvidas, descreveu 144.020 interações entre 15.521 populações de organismos em ecossistemas marinhos, de água doce e de solos de várias regiões do mundo. A partir destas redes, os investigadores estimaram os fluxos de energia, isto é, quanta energia circula entre recursos, consumidores e predadores, e testaram como a diversidade e a complexidade trófica influenciam funções essenciais do ecossistema, como o consumo primário e a predação.
 

Os resultados confirmam que ecossistemas com maior diversidade de espécies apresentam maior funcionamento ecológico. 

Mas, mais importante, mostram que à medida que aumenta a diversidade taxonómica, aumentam também os níveis tróficos presentes e a complementaridade entre predadores, tornando as teias alimentares mais complexas e eficientes na circulação de energia.

Nos ecossistemas de água doce, por exemplo, a diversidade funcional dos predadores esteve associada a fluxos de predação até 70 vezes superiores, evidenciando o papel determinante destes organismos na regulação dos ecossistemas.

 

"As espécies não funcionam isoladamente; os ecossistemas funcionam através de redes de interações", explica Benoit Gauzens, investigador do German Centre for Integrative Biodiversity Research (iDiv) e autor sénior do estudo. "Para compreender e prever as consequências das alterações na biodiversidade, a conservação tem de ir além da prevenção da extinção de espécies e proteger também as relações ecológicas que mantêm os ecossistemas produtivos e resilientes."

Os resultados mostram igualmente que a perda de predadores (frequentemente os organismos mais vulneráveis à destruição de habitat, à poluição ou às alterações climáticas) pode desencadear efeitos em cascata ao longo de toda a teia alimentar. Este fenómeno, conhecido como simplificação trófica (trophic downgrading), compromete funções ecológicas essenciais, como o controlo biológico, a manutenção da biodiversidade e a estabilidade dos ecossistemas.

Os autores referem ainda que estas funções sustentam muitos dos benefícios que a natureza fornece à sociedade, desde a regulação natural de pragas até à resiliência dos ecossistemas perante perturbações ambientais.
 

Catarina Vinagre integrou a equipa internacional responsável por este trabalho, contribuindo com 124 das 318 teias alimentares analisadas

Tratam-se de teias alimentares presentes em poças de maré estudadas na costa ocidental Portuguesa, na Ilha da Madeira, em Inglaterra, no Canadá, no Brasil (no Sudeste e no Nordeste), e em Moçambique. A poças de maré funcionam como mesocosmos, suportando elevados níveis de biodiversidade e complexidade trófica, constituindo, por isso, interessantes casos de estudo para a investigação das interações entre espécies. 

A participação do CCMAR reforça o contributo da investigação desenvolvida em Portugal para responder a algumas das principais questões científicas sobre biodiversidade, funcionamento dos ecossistemas e impactos das alterações ambientais.