Um estudo recentemente publicado na revista Proceedings of the Royal Society B, comprova que as interações mutualísticas entre peixes limpadores e clientes, despertam o sistema opióide nos peixes clientes, promovendo uma experiência de prazer de forma semelhante ao processamento da recompensa em humanos e outros mamíferos.
Os peixes limpadores (como é o caso do Labroides dimidiatus) prestam um serviço vital, removendo ectoparasitas e tecidos mortos de peixes clientes (como o peixe-borboleta Chaetodon auriga). Embora o benefício da remoção de parasitas seja bem conhecido, este estudo investigou se estas interações também proporcionam prazer, simplesmente pela estimulação tátil que os peixes limpadores frequentemente oferecem aos clientes.
Na espécie humana e noutros mamíferos, a sensação de prazer é regulada no cérebro pelo sistema opióide, um conjunto de neurónios, recetores e substâncias químicas que modulam a dor, o prazer, o humor e outras funções fisiológicas. Estas substâncias químicas podem ser geradas no próprio organismo, mas drogas como a morfina ou a heroína atuam neste sistema do cérebro para gerar sensações de grande prazer.
A investigação levada a cabo concluiu, pela primeira vez, que há uma participação do mesmo sistema na sensação gerada pelo simples toque de um peixe limpador, revelando informações cruciais sobre a natureza complexa do processamento da recompensa no cérebro dos clientes. Surpreendentemente, descobriu-se que o “gostar” e o “querer” são regulados por sistemas diferentes no interior do cérebro: o “gostar” está dependente de substâncias opióides mas o “querer” não. Mais ainda, destaca-se a profunda importância do toque, do tato e das recompensas sociais interespécies em peixes, indo muito para além além dos meros benefícios funcionais.
O estudo envolveu investigadores de Portugal (CCMAR, Cibio) e Brasil (Universidade do Sul e sueste do Pará e Universidade do Rio Grande do Norte), foi liderado por Caio Maximino, Heloysa Araujo-Silva, Inês Cacela-Rodrigues, Ana Carolina Luchiari e Marta Soares; tendo a componente experimental sido realizada no CCMAR pelo investigador João Saraiva (FishEthoGroup - CCMAR).
"O nosso estudo mostra claramente que os peixes experimentam prazer com a estimulação tátil e que isso é regulado pelo seu sistema opióide", afirma João Saraiva, acerca da nova luz que este estudo lança sobre as experiências emocionais em peixes e os mecanismos fundamentais do processamento da recompensa em vertebrados.
"Isto não só aprofunda a nossa compreensão dos estados afetivos dos peixes, mas também traça paralelos com a forma como o toque físico gera a sensação de prazer em nós próprios e como esse prazer é mediado por opióides gerados no próprio organismo", explica o mesmo.
Para chegar a estas conclusões, os investigadores realizaram vários testes comportamentais e farmacológicos para saber se os peixes clientes sentem prazer e reduzem os níveis de stress ao receber uma espécie de “massagem” dos peixes limpadores — além da limpeza dos parasitas, já que os clientes não tinham qualquer parasita — e se esse prazer estava ligado ao sistema opióide.
“Pessoalmente, uma das conclusões mais interessantes deste estudo é que basta os clientes verem os limpadores para os motivar a procurar os serviços de limpeza e de massagem, mas essa motivação é regulada por algo além do sistema opióide. Basicamente, querer e gostar são coisas diferentes”, conclui João Saraiva.
As conclusões foram assim surpreendentes e o estudo abre agora novas vias para explorar os fundamentos neurobiológicos do comportamento social e do bem-estar em espécies aquáticas, enfatizando a necessidade de mais investigação sobre os papéis de outros sistemas neurotransmissores, como a dopamina, nas recompensas sociais em peixes.




